PLACE OF CREATION
Arquitetura, restauração e construção sustentável em diálogo com a história.
Este projeto nasce da aquisição de uma ruína do século XII, situada na ilha de Susak, na Croácia, com a visão de transformá-la em um verdadeiro Place of Creation. Carregado de camadas históricas, o território de Susak foi moldado por diferentes poderes ao longo dos séculos — entre eles o Império Otomano, os Habsburgos e a Itália — deixando marcas profundas em sua arquitetura e cultura construtiva.
A ilha não possui circulação de automóveis, o que tornou a logística da obra um desafio em si. Todos os materiais precisaram ser transportados por via marítima e movimentados localmente por trator, exigindo um rigoroso gerenciamento de obra e um planejamento preciso em cada etapa. O desejo do cliente de restaurar o conjunto utilizando técnicas tradicionais e materiais originais ampliou ainda mais a complexidade do processo.
A escassez quase total de artesãos que dominassem esses métodos construtivos históricos demandou soluções criativas e inventivas ao longo de toda a obra. Em vez de recorrer a atalhos contemporâneos, o projeto buscou reinterpretar o saber ancestral, conciliando arquitetura moderna, restauração e construção sustentável de forma sensível e responsável.
O resultado é um dos projetos de arquitetura em que patrimônio, engenhosidade e imaginação se encontram. Mais do que recuperar uma estrutura em ruínas, o projeto devolve vida e significado a um lugar atemporal, transformando a herança construída em espaço de criação, reflexão e continuidade histórica.












O DESAFIO TÉCNICO-CULTURAL
Em Susak, a arquitetura histórica é construída inteiramente em pedra. Sem madeira disponível na ilha, não apenas as paredes, mas também esquadrias, vergas, calhas e elementos estruturais eram tradicionalmente talhados à mão, criando uma linguagem material rica e profundamente ligada ao tempo e ao gesto humano.
Hoje, essas técnicas praticamente desapareceram. As peças disponíveis são cortadas mecanicamente, resultando em superfícies excessivamente regulares e incompatíveis com a arquitetura original da ilha. Como não havia mais mão de obra capaz de reproduzir o aspecto antigo, foi necessário buscar uma solução alternativa.
A partir de pedras antigas quebradas, foram copiadas suas texturas por meio de moldes em silicone, aplicados em formas para produzir novas peças de concreto, cuidadosamente ajustadas em cor e textura. Após dezenas de testes, o resultado tornou-se indistinguível da pedra original — a ponto de ninguém perceber que se trata de elementos novos.
A solução foi tão eficaz que rendeu até um apelido local: “Silicone”. Mais do que uma curiosidade, o episódio traduz o espírito do projeto: respeitar a história não significa congelá-la, mas reinventar os meios para que ela continue viva.


































